O alcoolismo sempre
foi um problema difícil de ser enfrentado em todas as fases, mas
pesquisas revelam que na terceira idade as dificuldades se tornam ainda
maiores.
Para
piorar, a dependência da bebida também vem aumentando nessa população.
De
acordo com a ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras
Drogas), as dificuldades nessa faixa etária começam no diagnóstico. Isso porque
os sintomas do alcoolismo podem ser confundidos com outras doenças da idade,
como demência, depressão e até a solidão, o que faz com que os médicos e a
família demorem mais a detectá-los.
Entre
as causas do problema, está a aposentadoria, apontada nos estudos como um fator
que empurra os idosos para as doses a mais. Foi assim com Luís Rodrigues. Ele
conta que não conseguia ficar em casa quando se aposentou. Passou a brigar
muito com a mulher e a se sentir sozinho. Para arrumar o que fazer, começou a
frequentar o bar. “Eu bebia e me sentia mais calmo”, conta o aposentado.
Quando
percebeu, Luís estava deixando a família, os filhos e os amigos mais antigos
para ficar com aqueles que o acompanhavam nos botecos. “Eu pensava que a bebida
não me atrapalhava, que quem estava errado não era eu e sim os outros”, conta
Luís. “O pior do alcoolismo é que vamos do estado de euforia para a depressão e
não percebemos que estamos doentes.”
Segundo
Larriany Giglio, psiquiatra da Clínica Novo Mundo, os idosos são mais
vulneráveis à bebida, pois o metabolismo é mais lento e o fígado, órgão responsável
por processar o álcool, sofre uma redução com o passar dos anos. “Os idosos
apresentam riscos maiores dos efeitos adversos, mesmo em doses relativamente
baixas. Isso pode causar a conhecida hepatite alcoólica e a temida cirrose”,
afirma a médica.
Omar
Jaluul, geriatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, chama atenção para o fato de
os idosos, geralmente, tomarem remédios. “Misturar álcool com medicamentos é
muito perigoso em qualquer idade e muito mais na avançada. Os riscos de
depressão, hipertensão e perda de memória se tornam muito maiores.”
Omar
também diz que o idoso tende a ficar embriagado mais rapidamente, mesmo ao
ingerir doses pequenas. “E eles bebem de forma muito rápida, sempre sozinhos,
perdem o apetite e ficam muito mais irritados”, conta o especialista.
O
especialista explica que o alcoolismo pode ser uma herança familiar mas, no
caso dos mais velhos, a principal causa é, sem dúvida, de fundo psicológico. “O
álcool funciona como tranquilizador para medos, ansiedades e frustrações”,
afirma Omar. “Por isso, a abordagem psicológica e a terapia ocupacional são
muito eficientes no tratamento. E, de todas as ajudas, o apoio da família é a
mais importante.”
A
família também precisa de ajuda
Além
do alcoólatra, a família toda sofre e precisa de ajuda para entender o
que se passa com o dependente e aprender a lidar com a situação. Para
isso, foi criado o Grupo de Familiares AL-ANON (Grupo de Familiares dos
Alcoólicos Anônimos). Funciona como o AA (Alcoólicos Anônimos), mas com
reuniões entre pais, filhos, cônjuges, namorados e amigos próximos do
viciado.
Marisa
Lopez, mulher de Luís Rodrigues, advogada, mãe de três filhos adultos, é
uma das frequentadoras do AL-ANON. “Meu marido nunca foi agressivo, mas
ele sumia, bebia muito e não admitia que estava doente. Dizia que era normal,
sem perceber que aquilo estava afetando a nossa vida”, conta ela. “Por duas
vezes, ele saiu de casa e foi morar com um amigo. Da última, há dez anos,
desapareceu por dez dias. Quando o encontramos, ele estava péssimo. Eu e um dos
nossos filhos o levamos para uma clínica. Foi lá que ele passou a frequentar as
reuniões do AA e também me falaram do AL-ANON.”
Os
grupos têm o acompanhamento de profissionais da área da saúde e de voluntários.
Marisa, depois de uma década ali, compartilha sua história com as famílias que
vão chegando, na esperança de ajudá-las. “Posso mostrar a elas que o meu marido
se recuperou”, conta.
O
AL–ANON e o AA são associações sem fins lucrativos e podem ser frequentadas sem
custo. As reuniões acontecem em todo o Brasil e você pode ver o endereço mais
próximo no site: http://alcoolicosanonimos.org.br
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